UM DIABO QUE VIROU MULHER

Observação: este é o segundo livro da chamada fase pré-realista do autor, tem 24 páginas e  foi lido por 1.251 pessoas no Ebookess. O texto faz um resumo da filosofia platônica  e ao mesmo tempo realiza um diálogo entre o "Diálogo Fédon de Platão" e o livro "Belfagor, o Arquidiabo" de Maquiavel. 

Sobre a Obra


Esta obra é o contrário do que parece ser. É uma provocação àqueles que julgam um livro pela capa e ao mesmo tempo uma oportunidade de reflexão sobre os valores tidos como moralmente corretos, sobre os nossos conceitos e preconceitos, e sobre as várias faces da violência e da maldade representadas como amor ao próximo, igualdade, liberdade e fraternidade.  Em suma, é uma indagação pesada e ao mesmo tempo divertida sobre a cultura e a decadência da humanidade em vários aspectos.
Numa época onde o Google, no sentido de ‘ferramenta de busca’ é utilizado para obter um conhecimento cada vez mais superficial, formando um exército de pseudo-sábios, esse pequeno texto em linguagem simples ousa colaborar para que as pessoas deixem de ser sábias do que não são, santas que jamais serão, e, sobretudo, deixem de ser como bonequinhos de barro com um sopro, atuando como condenadas eternas na tragicomédia da vida na Terra, sujeitas aos gostos e caprichos de mitos psicológicos como deuses, demônios, seitas, crenças e mistificações que tornam o mundo onde estamos cada vez pior.
Ademais, essa obra, pretende encorajar as pessoas a abrir suas mentes para escalarem as mais altas montanhas de um saber baseado nas suas próprias experiências cujas mesmas darão um sentido mais realista à vida até então vivida.
Com efeito, transcendendo essa materialidade medíocre possam enxergar além de um palmo diante do nariz, uma vida extraordinária e não uma vida ordinária de uma servidão humana disfarçada de fraternidade, solidariedade e caridade.
Algo mais... É o que esta obra pretende ajudar a encontrar. E também presta um tributo às mulheres que através dos tempos foram e ainda são violentadas, caladas e forçadas a serem cada vez mais o que não são. Filosofia para todos, questionamentos dos valores, viagem ao desconhecido, é o que esta obra propõe. Viajemos!


Emerson Luiz Rodrigues
8ª Revisão em 11/08/2013

TEXTO
“Um Diabo Que Virou Mulher”

Introdução


Caro leitor e cara leitora, a dúvida é tudo. É duvidando para entender melhor que aprofundamos o que sabemos e descobrimos que o que sabemos não é grande coisa. Por isso, não acreditem em nada, muito menos no que lhes disser aqui, duvidem de tudo, sejam críticos, pensem e repensem. Tenham vocês as suas próprias experiências pessoais. Libertem-se! Ou ao menos, abram as vossas mentes. Livrem-se mesmo que temporariamente, de toda idéia de bem e mal, certo e errado, santo e pecado, livrem-se de todo o preconceito e de todo espírito e sentido de doutrina ou dogma. Penso que desta forma, poderão ver esse pequeno e singelo texto mais do que mais um texto em meio à milhões de abobrinhas espalhadas mundo afora. Mesmo assim, não lhes prometo que esse texto, não se torne à luz de vossa razão, mais uma abobrinha entre milhares de abobrinhas...

Primeira Parte
O velho que diziam ser santo e sábio...

Faz tempo, havia um homem que diziam ser muito santo e sábio. Este, dito santo e sábio, subiu até as montanhas, onde ficou por quase setenta anos. Lá, ele vivia um tipo de vida que poucas pessoas acostumadas com a comodidade, o conforto e a segurança da vida moderna poderiam suportar.
Tratava-se de um homem sisudo, que desde criança amava os livros. Há tempos abandonara a vida na civilização, exausto de vê-la em comovente decadência, enxergando nela, além da vaidade mórbida de seus líderes mentecaptos, o desenvolvimento incontido de uma forma patológica de materialismo, das várias formas de violência, da irrefreável desigualdade social, da indelével falsidade e da histórica hipocrisia disfarçadas de igualdade, liberdade e solidariedade.
Contudo, após estar muito tempo recolhido na mais solipsista, sombria e excêntrica soledade, entre os animais, os surrados e velhos livros e os seus mais loucos e utópicos pensamentos, decidiu deixar, temporariamente, a recôndita caverna onde se exilara nas verdes montanhas para ver a cidade. Ao chegar até ela, deparou-se com muitas novidades, vendo que as coisas estavam mudadas, encantou-se além da conta. Estava admirado com os prédios, com os telões e as propagandas pomposas, com os carros, o modo heterogêneo de se vestir das pessoas, as avenidas largas, as praças ornamentadas com estátuas de homens importantes da história citadina, colocados lá como modelos de santos ou deuses... Ainda, admirou o vai e vem frenético das pessoas absortas em seus mundos próprios e a beleza das mulheres, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes entre si, esbanjando vaidade, jovialidade, sorrisos alegres...  Deslumbrado, por um momento, tudo lhe parecia ser parte de um estranho e inconcebível paraíso...
Entretanto, olhando para debaixo de algumas marquises das igrejas, seu semblante que outrora expressava certo entusiasmo, voltou a ser o do velho homem sisudo ao ver que mesmo num mundo moderno onde a aparência do que é belo reluz mais do que o ouro, os andarilhos, os mendigos e os excluídos eram indispensáveis. Lembrara que em algum dos tantos livros que leu alguém já disse que é preciso existir os ‘antípodas’, aqueles diferentes e contrários, pessoas para quem nós apontamos o dedo indicador em riste e despejamos com todo o nosso amor ao próximo, gratuitamente, os nossos nobres juízos morais, fundamentados em valores ditos certos e indiscutivelmente verdadeiros...
            E naquele instante paradoxalmente melancólico, vendo aqueles seres sem nome, sem teto, sem sentido, sem esperança e a princípio ‘sem consciência de suas misérias’, na indigência de suas infelizes existências, misturados ao vai e vem ininterrupto dos ditos ‘escravos modernos’, onde, cada um quase personificava o Não-ser, aproximou-se de um deles e perguntou-lhe, como um alguém que nunca quer nada:

- Homem, que vida vive?  

Num repente, um homem magro, barbudo e cabeludo, cambaleante e de olhos fundos ergueu-se da poça, uma miscelânea de água e urina que fazia rescender um odor indizível, olhou para o Velho e respondeu:

Mendigo - Mas que diabo! Vivo a que vivo e o que tem você a ver com isso? Vou logo dizendo que vivo mais do que esses idiotas que correm para lá e para cá, sem saber onde vão chegar! Se é que chegarão a algum lugar! Eu não me preocupo com nada, nem com algum lugar, para mim tanto faz! Entendeu? Ah! Estou te reconhecendo! É aquele homem que se acha santo e sábio, aquele que todos dizem ter cansado da sociedade e se retirado para as montanhas! Como ousa sair de lá vossa santidade, se foi para lá, justamente, por desprezar tudo isso?

O Velho - Como poderia me achar se já nasci perdido? Como poderia ser santo onde jamais existirá um paraíso? Não sei dizer se estou louco, mas, se sou louco, isso, talvez o seja! E você?  O que é que faz aqui neste lamaçal? Dando-se ao luxo de ser chamado de miserável?

Mendigo - (em tom de ironia) Eu? Miserável? Pois te digo homem que se acha santo, se pareço um idiota como eles, então, sou o mais rico dos idiotas, por quê? Simples, tenho tudo o que preciso, tanto, que não preciso de nada, além disso, nem me importo com o que eles pensam. A única diferença entre eles, você e eu, é que eu fiquei aqui nesse lamaçal, e você foi paras as montanhas, espalhando a mesma lama pela estrada que conduz até a serra... E eles, estão onde estão com suas coisinhas e suas vidinhas... Além do mais, aqui não preciso pagar impostos, não preciso pagar luz, água e nem a comida apesar de ser escassa...

O Velho - Diógenes Laércio, do século XXI! Só que ainda está vestido!

Mendigo – Ninguém é o que parece ser. Agora, faço o papel de mendigo, mas também já li livros e também já fiz parte dessa burrice chamada sociedade. Além disso, saiba o amigo que nunca ouvi falar desse cidadão Diógenes, mas lhe afirmo: ‘a miséria deste mundo por si só já é uma forma de nudez...’ Além disso, veja esse bando de tolos apressados, esses escravos do relógio, eles não têm coragem para fazer o que querem, precisam de mim e de ti. Sim! Eles precisam de gente como nós, para mostrar às suas crianças que eles são alguém e nós somos ninguém, eles “o mar”, e, nós “um poço...” Todos os dias passam por nós e dizem assim: aquele é mau, sujo, fedorento, louco, não presta! E eles? O que são? Gente boa? Certos? Vão para o céu? Julgam-se mais importantes e úteis que nós, com seus trabalhos suas vaidades fúteis e seu consumismo burro! Não! Eu acho que não! Para mim, vossa santidade, são tolos que todos os dias vestem as suas fantasias, põem as suas máscaras, se escondem atrás das coisas que possuem do status social que ostentam, e então, vivem um dia de mentiras ou, quando muito, momentos de um idealismo sadomasoquista pseudo-religioso... E quando chega a noite, voltam para suas casas, para suas coisas, e atrás das grades que chamam de segurança, fazem de conta que o mundo é tragável e que um dia Jesus voltará para salvá-los e tudo vai acabar bem no final! Assim, ‘convencem as paredes do quarto’ como diria Raul Seixas e depois vão dormir... Eu? Eu não tenho esse problema. Sempre digo a verdade, até quando minto! Me parece melhor ser sincero mesmo sendo um zé-ninguém aos olhos dos outros do que fingir ser um alguém que não sou diante de mim mesmo... Estou louco? Sou um louco? Diga-me santidade?

O Velho - Pudera a tua loucura se espalhar por toda essa cidade meu caríssimo Mendigo! Digo-te: parece-me que vivemos a “Era Ginecológica” fundamentada numa moral-logia chifrológica justificada justamente pelo modus vivendi!

Mendigo - Meu Deus! Mas que diabos é isso?

O Velho sorri e diz - Bom seria se pudéssemos aplacar a nossa sede e a nossa fome de tudo numa só conversa, num só momento, mas não há tempo, tenho de voltar para as montanhas...

Mendigo, com um olhar pensativo, diz - O tempo não importa. Só a vida importa!

O Velho sorri, respondendo - Como você mesmo diz: tanto faz!

Mendigo - É. Tanto faz!

O Velho imerso em pensamentos, olha nos olhos do mendigo e diz -  Adeus.

Mendigo, reflexivo - Adeus amigo... Que Deus o acompanhe!
O Velho faz um sinal de agradecimento ao Mendigo, mas sem seu íntimo diz - Deus está longe demais para acompanhar qualquer coisa na Terra, se é que existe esse Deus que tantos afirmam existir.

Embora tenha se distraído ao conversar com o mendigo, não se demorou mais e resolveu voltar paras as montanhas. Estava abismado com as mudanças, com a modernização de algumas coisas e a resistência de outras. E lá foi o velho que todos o tinham como santo e sábio. Rumando uma das estradas que conduziam até a serra, olhou para o lado oposto do bem organizado centro e avistou o outro lado da cidade. Resolveu passar por uma das ruas da favela e não teve como não notar a discrepância ao observar o abismo social historicamente reinante, o morro, os barracos, as ruas esburacadas, a violência, as drogas, a prostituição, gente com fome, crianças sujas, velhos doentes, todos esquecidos pelos governantes, sem esperança de dias melhores. Então, perdeu o encanto de outrora e sem pestanejar, resolveu que nunca mais voltaria para ver aquilo e que terminaria seus dias na floresta no meio dos animais.
Passando por uma biela para subir a uma parte elevada da rodovia movimentada, ao lado da favela, foi avistado por moradores que correram ao seu encontro. As pessoas achavam-no demasiado diferente por viver nas montanhas, por andar sempre descalço vestido de uma túnica branca já muito surrada, pela longa barba branca e pelo pedaço de madeira que trazia como uma espécie de cajado. Desconfiado, apressou ainda mais os seus passos, os deixando para trás.
Ao tentar cruzar um sinal que tinha num pequeno cruzamento antes do asfalto que levava às montanhas, eis que surgiu um carro descontrolado, dirigido por jovens bandoleiros cuja nobreza de caráter se evidenciaria pelo ato que iriam cometer. Atravessaram o sinal vermelho e acertaram o velho que fora arremessado ao longe. Sem prestarem qualquer ajuda, deram no pé sem se quer olhar para ver o que havia acontecido com o ermitão das montanhas.
O povo que corria para encontrá-lo viu tudo e correu para ver o que teria sucedido. O velho homem sentiu a dama de preto vir buscá-lo...
E ali, mesmo martirizado pela dor, rodeado de curiosos, o pobre homem lembrava dos ensinamentos de Sócrates, o Filósofo, o qual afirmava que todo aquele que se dedicasse a uma vida virtuosa, trilhada na luminosa estrada da busca do saber que não se sabe, renunciando às paixões do corpo que corroem a alma, logo, teriam no outro mundo, uma sorte muito melhor do que a sorte daqueles que se dedicam a uma vida efêmera, às péssimas virtudes, sendo corruptos, maus e ignorantes.
E em meio à aquela dolorosa e vertiginosa agonia, eis que surgiu um homem de uns trinta e três anos, com os cabelos longos e uma barba comprida, descalço. Abaixou-se e segurou a mão do velho homem dizendo-lhe que tudo iria ficar bem.

Homem – Você vai ficar bem! Dou a minha palavra de andarilho!

Velho - E o pobre homem, protagonista de uma cena tragicômica, sorrindo dizia: “viver e rir de sí próprio, na incerteza do próximo minuto já é uma grande virtude. Não se importar se o próximo instante será bom ou mau e se acabará bem ou mal é uma grande façanha”  

Após alguns minutos, a ambulância que fora chamada por um dos moradores da favela que ficava ao lado da rodovia, chegou. E assim que chegou, esses importantes tarefeiros da saúde, desvalorizados pelas mentes asnáticas dos políticos que governam os países, o carregaram na maca e o levaram para um hospital público. O Desconhecido, sujeito estranho, aparentando uns trinta e três anos, ficou com o velho no quarto do hospital onde ouvia uma sábia enfermeira dizer que o milagre de ter conseguido um quarto só para ele, era maior do que ele estar vivo...
As duas velhas pernas quebradas, o braço direito com fratura exposta e as dores inenarráveis que apagavam cada vez mais a sua chama da existência, não tiravam daquele homem o seu bom humor, conservado a trancos e barrancos. Mesmo, naquele momento, digamos, trágico, parodiava Sir Isaac Newton cujo mesmo dizia: “Oh! Física! Poupe-me da Metafísica!”, dizendo: “... Oh! Dona vida! Poupe-me da ‘outra’ vida!”.
Não liguem para o exagero de positividade no nosso velho moribundo. Pois, existem pessoas que mesmo estando feridas e às portas da cidade dos pés juntos, conservam algum bom humor. Conscientes ou não, da brevidade da vida, agem assim sem maiores explicações. Talvez, seja uma disposição natural de espírito, daqueles que ao menos se esforçam para pensar no fenômeno da vida, como sendo uma continua transformação... Contudo, é bem verdade que a maioria das pessoas, à beira de bater as botas, perde a razão ou acabam com o pingo de razão que pouco exercitaram, e se entregam às lamentações e ao desespero do medo instalado em suas mentes, sobre um possível encontro com ‘o sacripantas’, ‘o inimigo’. Tolice? Deixo essa análise para vocês... Voltemos...
E o Desconhecido tentando distraí-lo da dor e da angústia, perguntava-lhe, o que esse tal Sócrates dizia da morte e do outro mundo?
E o velho, ainda que lascado, erguendo a cabeça e olhando de forma irônica para aquele Desconhecido, disse:
 Meu jovem, eu sofri um acidente, mas parece que você é quem bateu a cabeça! Falar de Filosofia numa hora dessas é para loucos... Mas, já que me olha como eu me olho no espelho, ou seja, como um louco, te digo: tudo o que se sabe sobre Sócrates é incerto. Sabemos alguma coisa, por intermédio de um de seus amigos que se chamava Platão. E mesmo assim, o Filósofo Sócrates, antes de sua morte disse tantas coisas, que seria preciso mais de uma vida de setenta anos para relatar-lhe um pouco do que ele havia dito. Acontece que muita gente maldosa, literalmente, se apropriou de partes importantes do pensamento daqueles loucos pensadores que chamavam de filósofos e mesclando com outras idéias posteriores, fundaram as mais diversas crenças, seitas e religiões conhecidas do nosso dito ‘mundo ocidental’. Sim! O cristianismo e outras correntes de pensamento fizeram uma espécie de plágio de muitas idéias dos pensadores que os próprios ditos religiosos alcunham de pagãos...
Meu jovem desconhecido, você segura a minha mão neste momento doloroso e faz lembrar-me do filho que nunca tive e dos irmãos que tive, mas que jamais quiseram estender-me um dedo sequer... Sabeis, a terceira guerra mundial já está a acontecer.
Desconhecido – Como assim? Que guerra?
Velho – Permita-me dizer que um dia desses estava eu na floresta buscando lenha para fazer fogo e aquecer-me, quando repentinamente deparei-me com um homem em cima de uma árvore. Que coisa maluca! Pensei. Era noite e lá estava um homem sentado num dos galhos da árvore! Já não sabia mais se era coisa da minha cabeça ou realidade, só sei que o que ele me disse fez algum sentido naquele momento.
Desconhecido – E o que ele disse?
Velho – Disse-me que a terceira guerra mundial não será entre nações. Argumentava ele: guerras exigem um enorme aparato e são demoradas! As pessoas já estão se matando umas às outras dentro de casa! Então, a terceira guerra mundial, seu velho louco, está dentro de casa, onde pai mata filho, filho mata pai, mulher mata marido, marido mata mulher, sem falar de uma infinidade de tragédias ocultas, secretas, onde as vítimas são mortas aos poucos, jamais revelando a violência sofrida.
Sem saber por que aquele ser estava me falando aquilo, obviamente, perguntei: homem, o que faz em cima de uma árvore dizendo-me essas coisas? Se nem família tenho, já que vivo sozinho aqui nessa floresta há quase sete décadas! Eu falando com um sujeito que não sei de onde aparecera!
Homem sentado na árvore – Ai que está seu velho bobão! Não foi de uma pedra que nascestes! Foi de uma mulher. Onde está sua mãe? Onde estão teus irmãos? Onde está tua família? A sua casa foi aniquilada há muito tempo! Agora vives solitário na floresta, mas já vivera solitário na própria casa... Um dia, esse saber que lhe concedo generosamente servirá para entender muitas outras coisas...
E se foi, como fumaça...
            Velho fala ao jovem desconhecido – Nem sei por que estou lhe contando essa estória...
            Desconhecido – Parece muito estranha e confusa, mas deve existir um sentido para as palavras dessa ‘aparição’ se é que pode ser chamada disso...
            Velho – Minha mãe morreu quando ainda era bebê, meu pai que nunca conheci abandonou-me num bordel, fui criado por uma dama da vida até aos quinze anos, ela era muito generosa, lia muitos livros, cuidava de mim como uma mãe e um pai ao mesmo tempo, aprendi a ler muito cedo, em torno dos quatro anos, lia sem parar tudo o que me era dado, até os quinze anos havia lido quase todos os clássicos de filosofia e literatura, era um rato de porão devorando livros...
            Desconhecido – E o que sucedeu depois disso?
            Velho – Ela foi assassinada por uns jovens bandoleiros que freqüentavam a casa noturna que ela gerenciava. Estavam todos bêbados e queriam forçá-la a fazer sexo com todos eles, ela resistiu, então bateram nela, machucaram-na bastante e foram embora. Antes de morrer, ela disse-me: Thomaz, jamais procureis a vingança, mas jamais confieis nos homens.  Depois disso, sai andando pela rodovia, perdido e confuso, atordoado por aquele momento trágico... No meio do caminho, levantei a cabeça e via a serra ‘esperança’ e corri para lá... Desde então, tenho vivido no meio dos animais...

Chega de miserabilismo! Antes que eu bata as botas lhe direi sobre Sócrates, afinal de contas é melhor do que ficar lamentando as tragédias de uma vida e disfarçando uma dor que parece inevitável.

Desconhecido – Então, fala-me desse tal Sócrates...

Velho - De fato, nada melhor que terminar a vida falando dos últimos momentos do Sábio Filósofo Sócrates. Sócrates era mesmo sábio, pois, sabia que não sabia de muitas coisas e o que sabia não era grande coisa... Acontece que isso incomodava e ainda hoje incomoda muita gente, especialmente, àqueles que se acham sabedores de tudo! Os donos e os defensores de verdades absolutas! Por causa disso, foi acusado de fazer coisas que jamais fez e condenado à morte, sendo obrigado a beber um tipo de veneno...
Contudo, nos momentos finais, recusando a fugir do cárcere, argumentado que não haveria nenhuma cidade no mundo onde pudesse fugir da morte, pôs-se a falar aos amigos sobre a imortalidade da alma. Dizia que ela era mesmo imortal e indestrutível, mas, que por estarmos presos ao corpo, que na visão dele - é uma coisa ruim - tudo fazemos para satisfazê-lo, acabando por nos corromper e prejudicar-nos na vida que seguiremos no mundo espiritual, o qual os gregos chamavam de Hades.
Então, recomendava aos amigos que se ainda não viveram uma vida virtuosa e decente, o fizessem o mais breve possível, procurando se purificar eliminando a ignorância e a animalidade que todos temos e cultivamos, através da busca do saber. Além disso, dizia Sócrates que era função da filosofia proporcionar essa busca. Uma busca incerta e sem fim, não parece?
Pois bem, nos instantes derradeiros, já vendo o carrasco trazer o veneno, convencido de que a alma é mesmo imortal e que a melhor sorte é a dos que fazem o bem e má a dos que fazem o mal, considerava uma boa idéia zelar da alma, afinal quem é que saberia dizer o que nos sucederá, não é mesmo?
Sócrates pensava: já que a alma não morre e que a morte é apenas uma passagem para o outro lado da vida, é bom que façamos o bem, mesmo que não tenhamos certeza do que nos aguarda... Se é que há mesmo alguma coisa...
Assim, dizia ele, que não existiria nenhuma fuga possível para as almas más, não teriam nenhuma salvação a não ser se tornarem melhores e mais sábias! Daí que a alma ao chegar ao Hades, no mundo espiritual, seria julgada não apenas pelo bem e mal, mas, principalmente pelo seu desenvolvimento geral, se é mais ou menos sábia ou se é mais ou menos ignorante.
            É preciso inserir uma reflexão aqui. Que vida vivemos? Vivemos uma vida que queremos? Ou vivemos uma vida que os outros acham ser a melhor para nós? O que é consciência? Temos a nossa própria “consciência” ou temos aquilo que nos ensinaram como “consciência”? As nossas noções de certo e errado, são mesmo nossas? Ou são as coisas que nos pregaram nos fazendo acreditar e com as quais vivemos, consciente ou inconscientemente, desde que nos conhecemos por gente? Já está tudo respondido e explicado? Ou ainda temos muito sobre o que nos perguntar? Devemos acreditar no que a sociedade prega como sendo o certo? Ou devemos duvidar de tudo para compreender melhor? Aceitar ou questionar? Simplesmente dizer amém? Ou ir além? Pensar não dói... Exceto quando se dá a cara a tapa...

E o jovem Desconhecido comenta - Cada um faz seu próprio caminho!
E o velho - Mais ou menos isso. Dizia o nosso amigo Sócrates, através de mitos, que quando morremos um Guia que nos acompanha em todos os momentos desde que nascemos, vem para nos guiar daqui para lá, até o local de nosso julgamento. Depois de sermos julgados e ter o que merecemos, outro guia nos traz para viver outra vez ou nos leva para os abismos infernais, onde ficamos por longo tempo. Alguns, de lá, jamais voltam!
Desconhecido - E como seriam esses abismos? 
O Velho - Sócrates dizia que explicar qualquer um pode, já que cada um tem uma explicação para essas coisas, mas, provar seria uma tarefa senão impossível, quase impossível! De forma que após o pedido dos amigos, expõe sua própria opinião a respeito dessas coisas afirmando que se considerarmos tal opinião, diria que os abismos infernais do Hades são bem piores que os abismos em que nos encontramos agora!
De fato, trata-se de um assunto muito difícil e extenso, temo não ter tempo para lhe relatar muita coisa... Tentarei ser mais breve que a minha morte!
Desconhecido - Avante! Mate minha curiosidade...
O Velho – A juventude é faminta e sedenta, mas geralmente não sabe de que! Pois bem, jovem faminto de saber! Dizia Sócrates, que lhe havia chagado ao conhecimento, que no Hades há muitos lugares para onde são encaminhadas as almas. Cada uma iria a um desses lugares conforme seus méritos e deméritos. Relata que também há templos belos onde os deuses repousam, lá, tudo é lindo, maravilhoso e perfeito! Os bons, os retos, os justos, certamente, terão grandes chances de residir com os deuses nesses lugares, e ai, gozarão da paz, do bem e eternamente serão felizes. Se é que se pode crer numa alegoria dessas...
Mas, porém, também existem os abismos infernais para onde serão levadas as almas que tiveram o que mereceram pela maldade e ignorância com que levaram isso que chamamos de vida. Nesses lugares sombrios, há muito fogo, rios de fogo. O maior e mais tenebroso de todos é o Tártaro, para onde são levadas as almas dos maus, dos criminosos e assassinos... Além do Tártaro, que é o pior dos rios dos abismos, existem os rios para onde são levadas as almas com faltas menos graves, algumas para se purificar, outras para ter o que de fato merecem! Ele nos fala dos rios: Oceano e Aqueronte, onde as almas se lamentam e se arrependem dos males. O Periflegetonte ou rio de fogos intensos; nesse, as almas são assombradas por seres terrivelmente horripilantes e bestiais. Perto do Periflegetonte está o lago Estige, onde alguns esperam os seus algozes trazidos pelo barqueiro Caronte, que é o condutor das almas. Dali, as almas são tragadas e expulsas por redemoinhos e tormentos macabros, numa louca travessia, passando pelo Tártaro aonde podem ver a má sorte dos eternamente condenados, chegando até o Cocito, que é o rio das queixas. Platão relata tudo isso no seu célebre diálogo Fédon...

Desconhecido - Se tudo isso mesmo existir, é razoável a idéia que sugere cuidar bem da alma!
O Velho - O que o medo não faz? Tem mais: depois de separar-se dos corpos ao morrer, todas as almas são levadas para serem julgadas. Umas vão por bem, outras são meio que levadas à força. Depois de julgadas, então, são levadas para uma dessas regiões. Todos têm o que merece! Os que vivem uma vida comum, a maioria das pessoas, sem muita ação, sem muita evolução, sem grandes conquistas e nem grandes derrotas, sem muitos vícios ou grandes virtudes, conforme a vida que levaram, são punidas ou recompensadas temporariamente, voltando a inserir-se em novos corpos...
Desconhecido - Parece àquela idéia que chamam de reencarnação...
Velho - Como disse, tem muita coisa que se parece com as idéias de Platão, chegando a parecer um caldeirão de bobagens onde se fundam dogmas, doutrinas e outras coisas do tipo... Tudo é, teoricamente, possível. Pode ser e pode não ser, e, mesmo que seja nunca é como pregam os defensores de verdades absolutas...
Desconhecido - E quanto a quem viveu uma vida purificando-se, se tornando sábio, puro, bom, justo, reto? O que acontece com esses?
Velho - Quem é que pode saber com absoluta certeza? No entanto, Sócrates diz que os que assim viveram passam a existir na vida verdadeira, sem os corpos físicos, para sempre residirão em lugares perfeitos, lugares bem melhores que os daqueles que fizeram só o mal. Porém, descrever esses lugares é algo muitíssimo difícil, e, não há mais tempo, pois, o carrasco lhe traz o veneno, Sócrates toma e bate as botas. Morrendo, talvez, confirmasse suas teorias e esclarecesse suas dúvidas, que de certa forma, também são as nossas, afinal há mesmo algo depois da morte? Ou, será que tudo acaba e fim de papo? E se há algo além das cortinas, é como pregam os senhores da verdade absoluta? Penso que não... Mas...
Desconhecido - Quer dizer que, a bem da verdade, só saberemos se há mesmo alguma coisa, somente depois de morrer? Que coisa!
Velho - Que coisa mesmo! Mas, o mais interessante é que, tudo muda, e se existir o outro lado da vida, quer dizer, que é bem possível que o céu e o inferno já mudaram também! De uma coisa nós sabemos, vivemos na era do céu e do inferno cristãos! Deus, anjos, luz, paz e amor de um lado. De outro lado está o Diabo, Lúcifer, demônios, trevas, ódio e guerra! A humanidade ainda está em sua fase infantil, embora tenha evoluído consideravelmente em muitos aspectos... Mitos, lendas e alegorias como tais fazem parte desse estágio de evolução, penso eu...

Desconhecido - Se de fato, as coisas são assim, se existir céu e inferno, mais ou menos, como nos falaram desde crianças, para onde você acha que vai?

O velho ri e sente-se frustrado por ver que o céu e o inferno cristãos, ofuscaram o Hades, o Olimpo e as regiões infernais dos gregos, que pare ele, pareciam muito mais poéticas do que o céu e o inferno do cristianismo... Mesmo assim, num misto de dor e ironia responde ao desconhecido que já não faz mais idéia e que no fundo tanto faz! No entanto, num ímpeto, volveu-se segurando na camisa do desconhecido e olhando no fundo de seus olhos diz:
Velho - Desconhecido! Desconhecido! Desconhecido!
E o desconhecido, afavelmente diz -  Diga, estou aqui, o que é?
O Velho - Estou sentindo um frio de morte! Acho que estou próximo de descobrir! Estou perto de conhecer o verdadeiro Desconhecido!

E deu um sorriso sereno. A máquina que monitora os batimentos do coração, então, tocou seu som macabro. A única enfermeira e o único médico presente entraram correndo e deram-lhe choques elétricos, fizeram-lhe as massagens necessárias.

Segunda Parte
Realidade ou Ilusão?

Após um tempo, em si mesmo, o velho sentiu tudo esfriar e escurecer... Quando deu por si, viu que não estava mais no hospital, nem no asfalto e tão pouco nas montanhas. Sentiu-se muito confuso, assustado. Logo, dois brutamontes vieram vê-lo...
Perdido, confuso e assustado o velho correu os olhos para os dois seres que vinham em sua direção. Pensava consigo que, de fato, morrera. Contudo, não estava convencido de que aquele seria o lugar onde realmente deveria estar. Os dois brutamontes se aproximaram e lhe deram as boas vindas.  Então, abismado, os agradeceu e sorrindo perguntou:
Velho - Que lugar é esse? O que se passa? Contava-lhes o quanto estava confuso...
Os brutamontes, rindo-se, desdenharam do velho e o ironizando diziam - Claro!  Ninguém sabe que lugar é esse!
O Velho - É o Hades! Estou morto e cheguei ao mundo espiritual! É isso...
Brutamontes - Que gênio! Vamos! Embora o tempo aqui rasteje, nós temos de andar...
O Velho - Para onde vão me levar? São meus guias?
Brutamontes -  Ah Claro! Guias! Essa é muito boa!
Velho - Vão me levar a Minos, Radamanto, Plutão? A que juiz serei eu submetido?
Brutamontes, rindo-se com desdém - Ouça amigo, devido a uma séria necessidade de adaptação e por uma questão técnica, o mundo espiritual já não é tão clássico! A cada era, nos adequamos à dita cuja linguagem da terra... Hoje em dia, chama-se apenas: além, céu, inferno e purgatório... Simplificado!
O Velho - Compreendo! Contudo, imagino que tiveram certos problemas com algumas almas!
Brutamontes, em puro sarcasmo -  Mais ou menos! Por aqui passaram muitas figuras... As mais polêmicas para nós foram Héracles, Aquiles, Alexandre, César, e alguns papas como Alexandre VI, Gregório VII, padrecos como Giordano Bruno, mulheres metidas a santinhas virgenzinhas como Joana D´arc, loucos como Napoleão! Esse era ruim de lidar! Mas, não mais que o cômico Adolf Hitler!
O velho - Imagino!
Brutamontes - Mas, pior que ele, apenas, a multidão de Judeus que o esperava! Tivemos de trazer aquele que na terra vocês chamavam de Cérbero, parar controlar os ânimos das almas... De fato, muitos foram os casos polêmicos... Muitos...
Enquanto caminhavam, rumo ao local onde o velho iria ser julgado, os Brutamontes, relatavam a histórias das grandes personalidades humanas que passaram por suas mãos e do trabalho que tiveram para conduzir muitas delas... O caminho parecia calmo, mas na medida em que se aproximavam do local, o cenário ia ficando cada vez mais Dantesco. O velho, no entanto, estava tranqüilo, pois tinha a convicção de que algo de bom o aguardava... Assim, após longo tempo de caminhada, entre abismos e enseadas, chegaram ao dito cujo tribunal.
No alto de uma torre de marfim, um ser Iluminado, com uma voz de trovão, lia as obras da vida do réu, diretamente do alcunhado ‘livro da vida’, de onde segundo os méritos e deméritos da evolução ou do estacionamento durante a vida na terra, saia a sentença que levaria as almas para verdadeiros paraísos ou para abismos infernais, bem no estilo grego...
Antes do velho ser julgado, eis que estava no palco um homem suicida. Do alto da torre de marfim, o Juiz com voz de trovão o indagava:
Juiz - Por quê? Por que, tirastes a própria vida?
E o homem apavorado, dizia-lhe que o fizera por amor, que era romântico e por isso depressivo!
Então, o Juiz da voz de trovão se insurgia dizendo-lhe - A quem pensa que enganas? Espírito presunçoso! Se achas sábio? Então, me diga: o que é o Amor?
E o homem, muito perdido, tentou argumentar lhe dando todas as explicações humanas possíveis...
Entretanto, o Juiz rindo daquela pobre alma disse – Humano idiota! Tirou a própria vida por algo que não sabe explicar? Como é que você troca a tua vida, por algo que nem conhece? Confesso que estou farto de vocês! Mas, mais que eu, está Lúcifer e seus irmãos... Apesar de amarem castigar aos humanos, estão muito aborrecidos com as muitas queixas por parte das almas que são jogadas lá no inferno ultimamente... Com efeito, já que tirou a vida por algo que não conhece, revelando-se dessa forma, um grande ignorante, vou dar-lhe uma chance para que aprenda e, quem sabe, desse jeito torne-se melhor e, ai sim, um verdadeiro romântico!
O Velho, abismado, observava atentamente o sorriso que se abriu na face da alma daquele suicida. No entanto, viu também que os dois Brutamontes não paravam de rir! Volveu-se a observar o julgamento e o ao Juiz que dizia:
O Juiz – Pois bem, vou lhe dar opões de escolha. Pense rápido! Queres voltar para a terra e viver como um Asno, ou, queres ir para o inferno?
E a alma do suicida - Mas, senhor, por favor, só tenho uma escolha a fazer?
O Juiz - E ainda quer ter mais escolhas? Acha-se no direito de escolher algo mais? O que há com vocês humanos? Negociam tudo! Na pele de um Asno, iria ver que o amor na terra é o que é. Se for para o inferno, aprenderá sobre o verdadeiro amor! Mas, pensa demais... Por isso, vou te mandar para o purgatório da lagoa Aquerúsia! Lá, terá bastante tempo para pensar!
E a pobre alma ignorante sorria alegremente, pensando que tinha ganhado um bom prêmio! Não sabia que a Lagoa Aquerúsia era um dos piores lugares, aonde as almas sofriam terrivelmente, queriam falar, mas, tinham as bocas remendadas. Após despachá-la, o Juiz riu-se tanto que chegava tremer a superfície daquele lugar. Então, chegou o momento derradeiro. O Velho que na terra tinha vivido uma vida solitária, auto-exilado da sociedade e da civilização, insatisfeito com a hipocrisia e mediocridade da humanidade materialista, subiu ao palco...
            O Juiz com voz de trovão abriu a página do livro da vida, onde estavam escritas as obras do velho. Olhou-o dos pés à cabeça, e disse-lhe que naquele livro tudo estava registrado, até os pormenores mais insignificantes da vida. Contudo, viu que se tratava de um amante de livros, um filósofo autodidata. Então bradou:
O Juiz - Filósofos! Brutamontes! Se aproximem! Digam-me, como se chamavam àqueles ditos filósofos que quase mataram o céu é o inferno de rir?
Brutamontes - Um deles se chamava Sócrates. Outros se chamavam: Platão, Aristóteles, Diógenes, Crátes, Sêneca, Agostinho, Aquino, Ockham, Descartes, Voltaire... Mas, a qual deles o senhor se refere? São tantos os que passaram por aqui, é difícil lembrar-se de todos...
Juiz – Ora bolas! Vocês se esquecem de tudo mesmo! Foram tantos! Mas, nenhum deles fez rir tanto o céu e o inferno senão aquele que afirmava a Morte de Deus!
Brutamontes - Ah! Sim! Era um dito Nietzsche! Dizia: “... Deus morreu! Foi ao amor dele pelos homens que o matou!”, esse era uma figura, mais cômico do que suas palavras, só o seu bigodão de gaúcho...
Juiz - De fato! Ele tinha um bigode ridículo... Mas quase matou a Deus de rir! Tanto que o próprio Arcanjo Miguel veio buscá-lo e por pouco não houve uma guerra com o Diabo! Os dois o queriam! Afinal, ele era genial!
E o velho ouvia tudo, sentindo-se muito em casa...  Afinal, tudo parecia um sonho muito louco...
Após relembrarem com entusiasmo deste caso, o Juiz voltou-se para o velho, dizendo:
Juiz - E você? Acredita em Deus?

...uma onda de risos tomou conta daquele lugar...

O Velho - Que diferença faz?

E uma nova onda de sorrisos transbordou...
O Juiz - Diga-me, você é um sujeito que não bate bem da cabeça ou o que? Não há maldade e nem muito atraso em ti, por pouco que não vai direto para cima! Só há uma coisa contra ti: nada de mal fizestes, mas, também nada de bem! O que me dá o direito de mandá-lo para onde eu quiser. Também sei que levou uma vida inteira tentando provar que a causa máxima de todos os infortúnios e das tragédias humanas é o Apego. Não é?
E o Velho - O senhor está certo.
Juiz - Mas, não conseguiu provar nada!
O Velho - Assim como não deram ouvidos a Sócrates, não ouviram a mim! Devido ao Apego doentio como posse, poder e domínio a humanidade como a conhecemos está mergulhada no mal do materialismo dinheirista, no amontoamento e consumismo de bens! Não aprendeu e, talvez, nunca aprenderá o significado da palavra ‘Coexistir’. O que isso significa em essência? Simples, saber conviver e estar com todos e todas as coisas, visando atingir a evolução cósmica final! Mas, por causa do Apego, tudo está como está.
Juiz - Como falas! Sabe, você é um velho bem maluco...  Contudo, parece que tem alguma razão. Os abismos infernais e os rios de fogo estão quase super lotados! De uns tempos para cá, está havendo uma inundação de almas! Todas más e atrasadas! A maioria delas, se autoproclamam representantes de Deus na terra! Mas, vivem suas vidas como se estivessem mortos! E quando pergunto sobre qual é a credencial delas para representar a Deus, confesso que quase rolo aqui de cima de tanto rir ao observar a pantomima delas! É muito engraçado!
O Velho -  Senhor, o que eu tenho a ver com isso?
E O Juiz, irônico - Tem, meu caro, que eu devo uma moeda a Lúcifer, a Pyriel, a Radamanto, a Belfagor e outros tantos. Encontrei a moeda! É você!
O Velho - Mas senhor, eu tenho direito de ir para o céu! Em nome de...

O Juiz tirou-lhe a voz dizendo que ali não poderia apelar. Quando chegar ao inferno, voltará a falar! Até lá estará mudo! Lembre-se: se ajudar a eles, então eu lhe deverei uma moeda! Brutamontes! Leve-o daqui!

            Assim, o velho foi mandado ao inferno para ajudar o Diabo. Seus préstimos eram dúbios, mas, não tinha escolhas. Como estava mudo, não podia reclamar do julgamento e nem das bobagens que os Brutamontes falavam durante o caminho...
            Ao chegar aos portões do inferno, constatou que havia mesmo algumas inscrições, mas, que não eram como um certo poeta havia dito. No entanto, uma delas, simplesmente dizia: “Criado por Deus”. Num segundo portão, estava escrito: “Filhos Amados”. E num terceiro portão, jurava ter visto qualquer coisa que dizia: “Colônia de férias eternas”. Assim, só quando adentrou no inferno é que voltou a falar...
            Os Brutamontes lhe desejaram boa sorte e então volveram. Rindo como sempre! Logo, um jovem bem apessoado, com cabelos longos e ternos pretos, apoiado numa bengala de ouro se aproximou. Era Lúcifer! E não parecia tão monstruoso como o descreviam na terra!
            Muito cordialmente, apertou a mão do velho e sorrindo de forma muito amistosa, dizia que ficou muito satisfeito por terem enviado um estudioso de filosofia, um autêntico amante do conhecimento. O Diabo achava que lhe seria muito útil! O Velho, inculcado com a situação toda, se indagara em quê poderia ser útil no inferno? No que o Diabo, lendo sua mente, respondeu:
Lúcifer - Estamos com um problema muito sério, meu caro Thomaz... O inferno está cheio! Nos últimos tempos, milhares de almas são mandadas aqui. Divertimos-nos, é claro. Mas, algo nos causa certo incômodo... Sabemos que todos os que aqui vem parar, basicamente, são mentirosos. Mas, acontece que todas as almas têm se queixado demasiadamente, dizendo que não são más e que se estão no inferno, se mentiram, se iludiram, se enganaram, sendo cruéis e maldosos na terra, é porque não poderiam ter sido de outra forma. Há algum tempo atrás, fizemos uma pesquisa em todos os rios e abismos, procurando saber qual era a causa verdadeira dos infortúnios humanos e se estes estavam na razão, se não mentiam. Tínhamos chegado a um resultado intrigante: todos os homens condenados às chamas infernais se queixavam dizendo que a causa única de estarem aqui se dava pelo fato de serem casados na terra. Então, a fim de constatar se isso mesmo era um fato verdadeiro, mandamos um de nós, para viver entre os homens, participando da vida humana e casando-se. Constatamos que os danados tinham certa razão... Entretanto, aquilo não me convenceu. E por muito tempo, alimentei a idéia de que é a Mulher a causa de todas as desgraças, ela é o motivo principal, por causa dela os homens acabam fazendo muitas besteiras! Para mostrar força, vitalidade e poder são capazes de tudo. Até mesmo matar uns aos outros... Então, a fim de saber qual é a causa de tantas queixas, é que pedi a sua vinda. Assim, todos saberão de uma vez por todas, qual é a causa de tantos acabarem aqui? E, ademais, você poderá saber se a sua filosofia se sustenta e é se ela é possível.
O Velho - De fato, penso que a minha filosofia é possível! Mas, por mim mesmo não posso fazer nada. Por isso, precisam seguir minhas orientações e agir com as suas forças, mas, uma coisa me incomoda...
Lúcifer - O que seria homem?
O Velho - Se eu ajudar ao Diabo, não correrei o risco de ser barrado no céu? Não terei a minha evolução prejudicada?

Terceira Parte
As idéias do Diabo

Lúcifer - Você me causa certa nostalgia! Recordo-me de quando era como você! Querendo subir e subir! Digo-te pensador: não te preocupes com isso. Aqui ou lá, estamos todos no mesmo barco. Nada pára. Um minuto aqui equivale a uma eternidade na terra. O tempo é lento, mas não pára. Tudo é movimento! Ademais, é só eu bater um gancho e você estará liberado! Aliás, se tudo der certo, se lograrmos êxito, quem lhe deverá uma moeda no final, será nada mais nada menos, que o Juiz que julga todas as almas! E então? O que podemos fazer?
O Velho - Sugiro que convoque uma reunião para elaborarmos um plano...
Lúcifer - Que seja feita a sua vontade...

            E assim, Lúcifer convocou uma grande reunião no inferno. O velho já havia lhe dado as diretrizes do plano, e ansioso aguardava o desenrolar da história. Após refletirem muito, o diabo dos diabos, pôs-se a falar:

Lúcifer - Irmãos! Há muito que zombam do inferno e de todos nós! Mas, lhes digo: o que seria do céu sem o inferno? Para onde iriam os maus? O que seria desta humanidade sem este Diabo aqui para apontarem e acusarem como a origem de todo o mal? Uns ouvem o padre e rezam, mas, saindo das suas casas falam mal de seus vizinhos, maldizendo-os de todo o tipo de nomes, invocando-me toda em quase todos os momentos. Dizem: diabo isso, diabo aquilo! Agostinho, este homem que aqui está por escolha própria, perguntava: É Deus a origem do mal? Outros apontam a mim como O Mal! Pois lhes digo irmãos, o Bem e o Mal humanos estão abaixo de todos nós! Contam aos terrestres que Eu fui expulso por Deus! Fomos precipitados do céu porque queríamos tomar o lugar do Pai! Tudo mentira! Ilusões da imaginação humana! Na verdade, Deus nos amou mais que tudo! Era preciso existir o inferno. Se eu não estivesse aqui, outro seria o rei deste mundo... Ou seja, nós somos essenciais para a existência do mundo espiritual! Nós fomos escolhidos para esta nobre missão que é dar a cada um segundo as suas obras! Vejam quantos abismos! Quantos rios de fogo! Quantas almas de homens? Criminosos, assassinos, mentirosos, tolos e enjeitados! Desde o surgimento da humanidade, milhares de almas passam por aqui... Uns pagaram o que deviam e retornaram em seu caminho de evolução astral. Outros estão aqui para todo o sempre, como é o caso de alguns Papas como Gregório IX, Alexandre VI, Pio XI e muitos outros que se proclamavam intermediários de Deus! Agora, além destes, os milhares de milhares de homens que aqui estão se queixam, pela segunda vez, que a causa de eles estarem aqui ou é o casamento ou é a Mulher. Pois bem, todos aqui lembram que certa vez um de nossos irmãos foi enviado a terra para viver entre os homens e, constatou que eles tinham uma certa razão! Contudo, não achei convincente essa experiência! Por isso, pedi aos juizes para trazerem a este mundo esse amante do conhecimento o qual acredita conhecer a causa real de todas as desgraças humanas! Este velho homem que aqui está, diz não ser nem a mulher, nem o casamento, mas outra coisa! Então, após pensar muito sobre esta questão, elaboramos um plano com o objetivo de saber, de uma vez por todas qual é a causa de tantas tragédias e comédias. Os condenados dizem pela segunda vez, que são inocentes! Pois, para agradar a mulher são capazes de tudo. Mentem, roubam e até mesmo matam para conseguir poder e dinheiro. Tudo! São capazes de tudo! Então casam e daí advém todo o mal.

Nisso, um dos demônios gritou:

- Mas, como poderemos ter certeza de qual é a causa das desgraças humanas? Como faremos?

Lúcifer - Irmãos? Já temos um plano! Muito simples: novamente, um de nós será enviado para a terra. Mas, desta vez, irá como uma mulher! Uma linda, atraente e sedutora mulher! Perfeita!
Os diabos - Lúcifer! Mas quem se submeterá a isso? É um ultraje!
Lúcifer - Não irmãos! Não é! Pois, se provarmos que a causa é outra coisa, estaremos na razão de castigar mais ainda esses patifes mentirosos que aqui estão. Além disso, se a causa de tudo é a mulher como eles dizem, então, nada melhor que um de nós se faça de mulher, assim, saberemos se os homens fazem de tudo por causa das mulheres!
Um dos diabos, diz - E quem irá?
Lúcifer - Simples, quem já tem experiência com as mulheres, o irmão esperto, ardoroso amante das pompas, diria, o ser ideal para esta missão: Belfagor!
Belfagor - Mas Lúcifer? Como mulher?
Lúcifer - É por uma boa causa. E irmão, sem truques!
            Assim, Lúcifer transformou Belfagor, contrariado, em uma mulher belíssima. Talvez fosse mais bela do que a primeira das mulheres! Algo verdadeiramente infernal. Tanto que até os demônios quase se esqueceram que era um deles disfarçado de mulher. Porém, antes de ser enviado, Belfagor, muito contrariado, recebeu um encanto de Lúcifer que, temporariamente, o faria esquecer de que era um demônio. Também recebeu ordens para se comportar como uma mulher perfeita: ser indulgente, fiel, atenciosa, prestativa, voluntariosa, submissa, uma verdadeira dama da sociedade de então...
Belfagor, era reverenciado e adorado pelas mulheres entre os povos pagãos da antiguidade, em poucas palavras, era o Dom Juan dos infernos; especialista em mulheres! No entanto, agora era a própria mulher, e seria cortejada e possuída.
            O velho observava tudo receoso de que daria certo. Lúcifer fez um sorteio entre os países mais corrompidos pelo poder. Escolheu uma Nação das Américas, e assim enviou Belfagor como uma jovem advogada, recém formada e que ajudada por outros demônios, seria a assessora de um senador, um dos homens mais poderosos e influentes daquela Nação.
            E dessa forma o diabo virou uma mulher. Assumindo o nome de Ana Bell, munida da mais arrasadora beleza, iria se ocupar de conquistar tal homem. Já no primeiro dia como assessora executiva, parou o trânsito da avenida dos ministérios, desbocou os marmanjos, e como um furacão, fez estremecer o gabinete do senador. Logo, aquele poderoso homem que apreciava a beleza das mulheres, além da conta, resolveu chamá-la.
            Ana, sempre muito séria e atenciosa entrou em seu gabinete. Quando o senador a viu, quase caiu de costas! Estava diante de uma obra, literalmente, dos infernos! Nunca tinha visto algo parecido, estava encantado. Na verdade, foi arrebatado e sumariamente conquistado.
            Em pouco tempo, Ana se tornou seu objeto de desejo, seu pecado e sua loucura. Um dia, o poderoso senador convidou-a para um jantar reservado. Foi então que Ana lhe deu o golpe final, o capturou em suas redes infernais. Agora, era o momento de saber, se eram ou não, as mulheres, a causa de todas as queixas e das lamentações dos condenados!
            Algum tempo se passou até que se casaram. O poderoso senador iria se tornar ministro, e, portanto, teria muito mais poder. Embora ela não soubesse da vida política e das maracutaias políticas de seu pretenso amado. Com o tempo, aos poucos, foi ganhando campo e vendo que o homem estava enfeitiçado pelo fogo da paixão, então, quebrou algumas regras, inconscientemente. Começou a dar-lhe ordens sem piedade e sem o menor receio. Já fazia tempo que era senhora daquele homem, sabia de muitas coisas secretas da vida política que poderiam colocá-lo em cheque.
            O homem que antes tinha sido terrivelmente arrebatado pela beleza de Ana, agora estava preocupado com seu poder e seus segredos. Cansado de receber ordens da mulher, ficava mais fora do que em casa, tornou-se adúltero e a paixão por Ana morreu. No começo tudo era lindo e maravilhoso. Ana Bell que amava ser cortejada, como esposa do ministro, além de ser bela era poderosa e por isso, muito bem recebida em todos os lugares!
Como demônio, havia sido acometido de um esquecimento temporário, e não podia usar seus poderes para saber, enquanto mulher, o que o marido fazia, vivia uma vida normal, e, como todas as mulheres, além de não acreditar desconfiava de que era traída. Após longo tempo, descobriu que era mesmo traída e que o homem não fazia tudo por ela! Era apenas um raríssimo e belo troféu a ser exibido para a sociedade de hipócritas e bajuladores de plantão. O homem dava mais valor ao poder. Ela viu que ele não roubava o povo, deixando muitos na miséria, para lhe dar conforto e status. Mas, para alimentar sua própria ganância e tornar-se cada vez mais rico e poderoso. Ele acreditava que assim teria qualquer mulher e seria reverenciado por todos como um grande homem, quando na verdade era um patife! Um politiqueiro cruel e desumano que roubava milhões de pessoas para alimentar o seu ego.
            Como mulher, Ana, desiludida e frustrada, sabendo que seu poderoso marido era um calhorda sem escrúpulos que fazia tudo não por ela, mas por poder e mais poder; decidiu também traí-lo. Como já estava acostumada à vida na terra, às pompas e honrarias, havia esquecido que tinha de voltar para o inferno.
E um dia qualquer sem pensar, se apaixonou por um rico empresário. Eram amantes! O empresário lhe dava de tudo, era amada, festejada, cultuada. Com o tempo descobriu que ele não era um homem muito honesto. Para nutrir seus sonhos de poder ajudava a poluir e destruir a terra. Então, viu que, o novo candidato era como o ministro, se importava muito mais consigo mesmo do que com a mulher!
            Apesar dos pesares, Ana Bell, gostava de pompas. Era vaidosa como um diabo! Porém, o ministro sabendo de sua traição e temendo ser ameaçado pela esposa mandou assassiná-la. Embora tenha sido avisada mentalmente pelos demônios que a acompanhavam, Belfagor, como Ana Bell, tinha se apegado àquela vida de conforto, comodidade e segurança, tanto que não queria desapegar-se...
            O ministro iria se tornar candidato à presidência da Nação e sua vitória era certa. Ter uma mulher como Ana Bell tornava-se perigoso demais. Como sabia de seu apego pelas coisas, da sua vaidade incontida, prometeu-lhe dar uma festa numa ilha do Atlântico. Assim, ela decolou na aeronave e voltou para o inferno... Quanto ao ministro, seria descoberto mais tarde, envolvido em fraudes de bilhões. Então, entristecido por perder o poder e todas as coisas, as quais era apegado, suicidou-se.
            Algum tempo havia se passado no inferno enquanto Belfagor cumpria sua segunda missão na terra. Desta vez, como a mais bela das mulheres. Ao retornar, o diabo relatou tudo o que viveu como mulher. Lúcifer e o Velho ouviram tudo atentamente. Contava que a mais bela e mais perfeita das mulheres, de fato, tinha o poder de apaixonar de forma arrasadora dois dos mais poderosos homens do mundo, mas mesmo assim estava em segundo plano, não obstante tenha sido submissa e também mandona, usando e abusando do poder que tinha como mulher. Porém, não foi o suficiente.
            No inicio sentiu-se especial, querida, amada e desejada. Mas com o tempo, mesmo tendo de tudo, mesmo sendo agraciada de todas as formas, sentia um vazio profundo. Um vazio que as posses, os bens e o poder não eram capazes de preencher.
Tinha homens poderosos, mas não tinha amor. E, mesmo sendo um diabo disfarçado de mulher, se comiserava com a situação sub-humana de milhares de pessoas sem emprego, sem educação, sem saúde, sem segurança, sem perspectiva de vida por causa das mazelas e do egoísmo de homens como o ministro e o empresário; marido e amante, os dois viciados em dinheiro, em poder, cegos por um consumismo burro, por uma ilusão de realização humana baseada no Ter. Para suprir suas ambições, eles eram capazes de tornar a terra um inferno; mentindo, roubando e até assassinando! Muito tocado pela experiência, Belfagor, confessou que não via a mulher e nem o casamento como causa das tragédias humanas, responsáveis por levá-los ao inferno.  Achava que a mulher era vítima da obsessão dos homens pelo poder e pelo domínio.
Lúcifer estava pasmo com as palavras de Belfagor. Após ouvi-lo, se pronunciou dizendo que estava provado para ele que não era o casamento e muito menos a mulher a causa dos homens acabarem no inferno. Mas ainda não sabia qual era a causa principal. Intrigado disse ao velho filósofo:
Lúcifer - Meu caro, já sabemos que as miríades de homens que aqui estão, são mesmo merecedores desses castigos! São patifes, calhordas e corruptos! Mentiram duas vezes, ao se queixarem que a causa de tudo era o casamento e a mulher. Pois, está provado que não é nem uma nem outra coisa, e o esforço do irmão foi de suma importância, porque, se fez de mulher; a mais frágil e bela das criaturas! Aquela que muitas vezes sofre calada todas as barbáries das quais é vítima. Com isso, devo devolver-lhe os poderes para que ande pela terra e divirta-se com esses seres belos e encantadores e atormente os homens, esses patifes!

O Velho Santo imerso em pensamentos olhava para a cabeleira de Lúcifer, enquanto ele falava...

Lúcifer - Velho! Você nos ajudou a constatar de uma vez por todas que não é a mulher a causa de tudo. Por outro lado, o que é? A política? O poder? O que? Diz-me homem, o que pensas?
Velho - Caro Lúcifer, tenho para mim a prova de que não é a política, por que ela, como dizia Aristóteles é um bem que visa à felicidade de todos. Assim como outras coisas é mal utilizada servindo o interesse de alguns apenas! O poder, não é um problema. É uma solução. Não está no poder a causa, antes, estaria nos homens que usam o poder para obter poder apenas para si mesmos! Esses políticopatas, esse corruptopatas doentes por dinheiro!
Para mim, os motivos de o céu estar cada vez mais vazio e o inferno superlotado, estão na Ignorância e no Apego doentio às coisas. Belfagor, através dessa experiência, mostrou que as pessoas usam umas as outras, e usam as coisas para a realização puramente egoística, de forma negativa. Corruptopatológica. Mesmo que para isso façam da terra um segundo inferno! Acaso você viu algum Sócrates, um Diógenes, um Gandhi, um Buda, Marx, um Nietzsche, sendo castigados aqui nos abismos? Eram meio loucos, tudo bem, mas desejavam um bem que a humanidade sequer pode imaginar...
Lúcifer - Não! Mas Lênin e Stalin estão lá embaixo!
O Velho - Que seja. Os desapegados, aqueles que entenderam o significado da palavra coexistência, tiveram paciência, paz e estômago para conviver até com o mais cruel de seus antípodas! Por quê? O que estava em jogo sempre era uma realização existencial muito maior do que a vidinha sem sal do dinheirismo politicopata!
Falo de uma realização totalizada de cada um, de forma autêntica, e não a realização egoística, fútil e hipócrita de um só, na base do velho ditado: “cada um por si”. Veja Lúcifer, olhe os abismos! Milhões de espíritos de homens que na terra se achavam muito poderosos, senhores da verdade absoluta! Onde eles estão? No fogo da vergonha íntima, do desespero por ter utilizado mal da liberdade que dispunham!
Por quê? Mataram, roubaram, enganaram, mas mais que isso, foram tudo aquilo que não eram, não tiveram a coragem para assumir o que são, talvez espíritos em evolução, seres inteligentes em busca de algo mais, chame do que quiser. Todos fazem o bem e o mau, não há santos! As pessoas é que inventam essas bobagens. Por que matam, roubam, enganam? Simples, porque tem preguiça de pensar e exercer a racionalidade. Caindo na animalidade vivente, consumindo e amontoando coisas, crentes de que isso é poder, força e realização! Veja! Onde estão todos os que fazem estas coisas? Se fossem desapegados não fariam da terra e da vida um inferno, mas um céu!
Lúcifer - Seria possível que os humanos fossem melhores e evoluíssem de verdade sob esse ideal de desapego? Digo-te, eu duvido! O inferno é grande, e sempre haverá espaço para todos esses infelizes!
O Velho - O desapego é maior e melhor que o apego! E o inferno está de prova. Afinal, apesar do pesares, o diabo não mente! Ademais, o apego é inevitável, mas desapegar-se é mais inevitável ainda, ou acaso o Diabo acumula riquezas na Terra?
Lúcifer, sorridente, diz - Tua parte já está terminada meu caríssimo Thomaz. Agora pode ir ter com aquele que te deve uma moeda. Dizei-lhe que sou grato pela cortesia!
            Assim, o diabo agradeceu ao velho e o acompanhou aos portões do inferno. Enquanto caminhavam, notou que uma espécie de cadeira elétrica estava sendo preparada. Curioso, perguntou para quem seria aquilo? Sorridente, como sempre, o diabo contou que era a cadeira do choque eterno. O homem que ali sentaria seria eletrocutado durante toda a eternidade. Quem será o escolhido? Perguntava o velho. Escolhido? Dizia Lúcifer. Asseverava que o homem que ali sentaria estava construindo seu próprio caminho sob o comando de uma das maiores religiões do Planeta...
               Assim, o velho chegou aos portões do inferno onde foi novamente recebido pelos dois Brutamontes. Lúcifer, disse que ele poderia voltar quando desejasse. Pelo fato de ter ajudado ao Diabo, tinha passe livre. Numa última curiosa indagação, disse:
Velho - você pretende tomar a terra?    
Lúcifer - Por que eu tomaria aquilo que a ninguém pertence?
Velho -  Vocês são inimigos? Você e Deus?
            Lúcifer sorriu e disse - E quem disse que somos inimigos? Talvez sejamos a mesma pessoa! Pense meu caro pensador!

            Então, os portões se fecharam. Os Brutamontes que esperavam o velho disseram-lhe que o Juiz estava muito satisfeito. No entanto, o filósofo desconfiava se aquilo não era mais uma de suas ironias...

Voltando


            Velho - com vocês se chamam?
            Um dos Brutamontes - Eu com um chifre sou Ibo, ele com dois Obi. Antes éramos um só, mas, fomos divididos pelo Juiz.

            Velho - Para quê?
            Ibo - Não sabemos!

Então, o velho partiu para ter com o juiz e saber qual era o destino que lhe restava. Ao chegar novamente no tribunal, a voz de trovão bradava:

            Juiz - Pensador! Pensador! Estou feliz em revê-lo! Mas, vamos direto ao que interessa. Soube que teve êxito no inferno, Lúcifer está contente. Mas, também vi que apesar de tudo, há algo que ainda não está terminado. A tua filosofia do desapego precisa ser semeada na terra...
            O Velho - Nunca darão ouvidos a um velho que vive sozinho no meio do mato! Estão surdos, cegos e loucos! Na terra, é o apego que manda! Só nos resta seguir na árdua tarefa de criticá-los e talvez algum dia alguém acorde para a realidade, se é que existe alguma...
            Juiz - Então é isso que tem por fazer! Vou te mandar de volta para que incomode bastante!
            Velho - Não quero parecer mole, mas, com a idade que tenho, sair dizendo certas coisas por todas as partes do mundo, me renderá os mais diferentes epítetos e sátiras, apenas isso! É perda de tempo! Além disso, não sairei das minhas verdes matas até que a Dama de Preto de conduza novamente para cá...
            Juiz - Te enganas! A tua máxima: “O desapego é maior e melhor que o apego”, vai ultrapassar os séculos! Será lembrada quando todos, darem as mãos... Além disso, não precisa andar o mundo todo, as pessoas irão atrás de você após voltar dos mortos...
            Velho - Quanto a isso, até o diabo duvida!
            Juiz - Ele sempre duvida de tudo, essa é sua personalidade, única! Por isso ele é o diabo!
            Velho - Eu devia ser como ele!
            Juiz - Talvez não o saiba, mas é pior do que ele! A tua filosofia do desapego, para as almas da Terra, é um verdadeiro inferno! Por isso, eles preferem as coisas, são uns tolos iludidos que acreditam estarem no céu e até desejam um céu ilusório! Ai me aprece um velho como você tentando tirar deles a ilusão sem a qual não vivem em sociedade!
            O Velho - Mas, Juiz, me diga: Qual é o sentido e o objetivo final de tudo o que há? Porque existe isso tudo? Para que existe a evolução? A perfeição, relativa e absoluta? O Universo? Os Planetas? As mais variadas e até inimagináveis formas de vida? Para quê tudo?
            Juiz – Só os Deuses sabem!
            Velho - Você é um Deus?
            Juiz - Não!
Velho - Lê pensamentos?
Juiz - Nâo!
Velho - Sabe tudo sobre todas as coisas, do presente, passado e
futuro?
Juiz - Não! Só os Deuses sabem!
Velho -E então?
Juiz - Então o que?
Velho - Como é que você sabe que só os Deuses sabem?

O Juiz ficou em silêncio e, após pensar muito, reconheceu que não sabia a resposta e que também não era possível saber se os deuses, se é que existem, poderiam saber tudo... Então o velho sorriu e lhe disse - Se tornou um filósofo!

E uma onda de risos tomou conta do tribunal. Após isso, o Juiz deu a ordem para Ibo e Obi o levarem de volta para a Terra... Tirem-no da minha frente!  
            Na terra, um corpo com aspecto cadavérico estava sendo velado num lugar público, acompanhado de muitos vagabundos, andarilhos e mendigos bêbados que não o conheciam, mas, que por um motivo qualquer estavam lá, fazendo companhia ao Desconhecido que segurava a mão do velho no hospital.  Uns diziam: “Coitado! Foi atropelado sem piedade”, outros diziam: “ Esse é o mundo! Uns atropelam e outros são atropelados!”.
            E enquanto falavam essas coisas, o Velho, tornou a si dentro do caixão. Por qualquer motivo desconhecido não podia abrir seus olhos, mas, ouvia tudo. Então, pensava se havia acordado de um sonho, ou, se tudo não passava de mais um louco e estranho delírio... Após uns instantes, indagou:
               Velho, em pensamentos - Que coisa mais estranha o que me aconteceu, era um sonho ou uma realidade passageira? Estive morto e tornei a vida? Era mesmo o inferno? Por que não vi lá nenhum extraterrestre? Será que o céu e o inferno são apenas para os humanos? Possivelmente, não somos os únicos no universo! Ah! Que tolice a minha! Não pode ser! Acho que foi só um delírio...
               Por fim, ele chegou a uma conclusão: se nem o céu ou o inferno podem nos dar essas respostas, o que pode nos levar a um conhecimento sobre essas coisas? Afinal, o que somos diante da imensidão do universo? O que significa a vida do homem e a humanidade diante de tudo isso? O que significa o céu, o inferno, o purgatório ou qualquer uma dessas coisas? E mais que isso, para que tudo? Qual é o objetivo e o sentido final de tudo isso?
               Assim, imerso em pensamentos, com duras dúvidas, abriu os olhos. Viu que estava num caixão, mas não se alarmou, estava mais preocupado com o que se passou do que com o momento que vivia... Se levantou, mas não saiu do caixão, permaneceu sentado, e ao fazê-lo, assustou a todos que saíram num tropel em direção da rua... Quando olhou do lado, se surpreendeu ao ver que somente o Desconhecido havia permanecido... Conversaram um momento. Enquanto os outros olhavam tudo de longe, assustados...
               O desconhecido se aproximou e muito curioso perguntou - Não morreu?
O Velho, com ar de ironia que lhe era próprio - Não sei Desconhecido! Parece que ainda não! Estou tão confuso! Minha mente só se pergunta, não consigo parar de me perguntar, qual é o sentido da vida humana? O que significa a vida humana e a terra, diante das miríades de miríades de planetas e estrelas por esse imenso universo?
Desconhecido - Não sei amigo! Penso que não é uma pergunta fácil de ser respondida... Ainda mais num caixão!
O Velho - Tem razão amigo, tem razão... Imagine Desconhecido, que talvez, nem Deus e nem o Diabo saibam! Então, o que poderia nos aproximar de tais respostas?
Desconhecido - Não sei, mas, penso que há, entre tantos meios, dois que eu acho serem importantes: cada um por si, ou, todos juntos de mãos dadas!  Sozinhos, podemos chegar a algum lugar, mas juntos, podemos ir mais longe! Hoje, andamos divididos. Por isso, não chegamos há lugar algum...
O Velho - É meu amigo! Quão difícil é ver a humanidade coexistindo e evoluindo pacificamente, sem destruir o Planeta! Por isso, penso que o Desapego poderá proporcionar a Coexistência necessária para que cheguemos a algum lugar...
Desconhecido - Parece que está mais sábio do que já era...
Velho - Menos burro! Talvez seja mais adequado! Sábio? Quem é sábio? Agora, vejo que a dor é mais que inevitável. É essencial!
Desconhecido - Não precisamos da dor!
Velho - Talvez, não! Mas, a dor fez com que eu mergulhasse dentro de mim mesmo, e assim, me encontrasse, com o meu Juiz, meu Inferno e meu Céu! Na dor, na incerteza do depois, me encontrei! Morri e renasci, em mim mesmo! Esse mergulho solitário me clareou a existência, me fez ver que:

“...Isso poderia ser uma paraíso se não tornássemos tudo um inferno;
isso poderia ser melhor se fossemos menos piores;
isso poderia ser àquilo, se não fosse apenas isso!...”

Desconhecido - O que não temos de belo é o que temos de belo...O que não somos é o que somos...
Velho - Só podemos nos tornar o que realmente somos... Sabeis meu caro desconhecido, não sei até onde nos encontramos, mas, também não sei até que ponto nós nos perdemos... Só penso que deixei de ser quem era, e comecei a ser o que realmente sou...
Desconhecido - Mas, o que você pensa ser a vida humana diante de todo esse universo? Somos grandes pequenas mentiras, ou pequenas grandes verdades?
Velho - Quem me dera saber o que existe além dessa carcaça que um dia a terra irá devorar! Mas te digo, penso que só há uma coisa capaz de nos dar uma idéia concreta sobre o que realmente somos diante desse universo. A nossa vontade esmagadora de algo mais...
Desconhecido - Será?
Velho - Que outra coisa poderia nos ajudar de forma concreta e útil? Porém, penso que antes de refletirmos sobre essas questões dificílimas, é importante sair deste caixão de uma vez, pois parece demasiado excêntrico dialogar com um morto vivo!
Desconhecido - Tem razão... Venha, eu lhe ajudo...

E o velho saiu do caixão, e começou a caminhar para fora da capela... Enquanto continuava seu diálogo com o Desconhecido. As pessoas olhavam à distância, abismadas com a situação...

Velho - Dizia, Ah! Sim, busquemos nos encontrar aqui e agora, em carne e osso, ao vivo e a cores... E em nós mesmos... Antes de procurar em outros lugares ou nas coisas...
Desconhecido - É o velho dilema: o que veio antes? O ovo ou galinha? O Universo ou os Deuses? E antes deles? E antes? E antes? Será que nos encontraremos diante disso tudo, algum dia?
Velho - Definitivamente, não sabemos e, talvez nunca iremos saber... Por isso, não podemos mais perder tempo, comendo uns aos outros por coisas que estão além de nós... Resta-nos apenas Conviver e Coexistir no agora, pois tudo que temos é o agora... Então, podemos ser sábios ou tolos... Burros, menos burros ou completamente burros... A escolha é nossa...
Desconhecido - Mas, e toda a verdade baseada nessas coisas dificílimas? Não tem mais o grande valor?
Velho - Desconfio que tais verdades ditas supremas não passam de meras invenções humanas, apenas isso....Mas, caro desconhecido, quem sou eu para dizer uma coisa dessas?
Desconhecido - É preciso pensar sobre essas coisas, mesmo que isso signifique correr o sério risco de descobrirmos que tudo acaba em nada...
Velho - São distrações, meras distrações... A vida humana na terra, sua história e tudo o que provém dela é mera distração diante do inevitável da morte... Mas, é preciso que essas distrações sejam no Agora... Sem mais depois...  Digo-te, jovem desconhecido...
No mais profundo abismo existencial, conversei com o futuro... E  ele me disse “... o passado presente é meu futuro...”, e mais, que o passado é o maior presente do futuro que eu tenho... Então, lhe questionei: Mas como? Se em meu passado vejo apenas um campo de batalhas, ruínas para todos os lados, raríssimos momentos de silêncio e paz em meio às trincheiras da guerra da vida? E ele tornou a dizer: Isso é o que você está vendo... Isso não é o que você pode ver... Por isso, devo anunciar-lhe algo além deste tempo... Tudo o que fizer para além de si mesmo, agora, em carne e osso, será o maior presente para o presente do próximo futuro, e então, serás grato por estas palavras. Não há o que temer, nem o que lamentar dos dias vividos, dos ventos soprados, pois, houve tempos em que os ventos da vida estavam parados? Esqueças nobre tolo, não há certo e nem errado! Não! De forma alguma! Então, os ventos do destino que antes sopraram, sopram e soprarão sempre, conduzindo aqueles que vivem e amam sem temor e sem apego para além de do todo o seu bem e de todo o seu mal, eternamente.
Então ficamos um pouco em silêncio... Percebi que havia sido capaz de entender o que o futuro me disse... Nem tudo até aqui foi tragédia e nem tudo foi comédia, aliás, mais cômico do que trágico... Os ventos sempre sopraram, porém, foi preciso escalar os mais altos montes para poder sentir qual era a direção que os ventos mostravam! Sempre foi preciso chutar o balde! Nunca houve meio termo! Nunca!
Assim, antes de uma nova Aurora, vi surgir um novo Agora, e este, na verdade é uma mulher, por isso foi capaz de conceber o passado e os filhos do futuro... E assim, aquele futuro a tomou pela mão e me disse: eis a minha mais amada amiga e amante! E se foram...
O que estou a dizer com isso meu caro? Simples, os ventos da vida sempre soprarão, e devemos subir aos mais altos montes para ver qual é a melhor direção a ser tomada... A vida sempre será para todos, cheia de altos e baixos, tragédias e comédias! Agora sei que é preciso pensar: o que vamos deixar? Qual será o sentido de termos passado por aqui? Penso no futuro sem abandonar de forma alguma o Agora... Vivo o Agora e o vivo não apenas como se não existisse o amanhã, mas por ter certeza de que é para sempre... E isso, levado aos extremos... Significa mesmo, radicalizar, chutar o balde, e fazer o que parece ter algum sentido em meio a essa coisa toda... E é isso que pretendo fazer doravante... Experimentar a vida, viver as experiências, em todos os momentos, sem medo de ter medo... Sendo a cobaia de mim mesmo...
O velho falou ao desconhecido, tudo aquilo que tomava vida dentro de seu interior, quase que num transe, mergulhado em pensamentos, ele caminhou até o lado de fora da capela, onde uma multidão de curiosos o observava e bradava:
“... Santo! Santo! Voltou dos mortos!... Irritado com isso, o velho disse: Sobrevivi a mim mesmo seus tolos! Por que da morte ninguém escapa! Se eu sou santo, todo mundo é santo! Aliás, se existissem santos e sábios de verdade, esse mundo seria um paraíso e não esse inferno onde alguns poucos se dão bem e bilhões se dão mal...”.
Quando olhou novamente, procurando pelo desconhecido, notou que não mais estava... Em lugar algum...


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Nota de edição: até 11/08/2013 o livro intitulava-se: “Diabo Mulher”, no entanto, à partir de 11/08/2013 ele recebeu um novo título ficando como “Um Diabo Que Virou Mulher”.




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