A confusão que fazem entre Santo Antão e Santo Antônio, a questão das tentações de Antão e o inconsciente
Uma certa confusão é feita por muitos sobre dois personagens diferentes da história: Santo Antão (251-346) e Santo Antônio, de Lisboa (1195-1321).
Quando se pega a amostra de quadros de Salvador Dalí, Paul Delvaux, Hieronymus Bosch e outros que retratam as chamadas 'tentações de Santo Antônio', muitos pensam se tratar do santo tido como 'casamenteiro'.
Na verdade, as obras de Dalí, Bosch, Delvaux e outros tratam das tentações sofridas por Santo Antão, também chamado de O Grande, ou Antão do Egito.
A tradução literal do nome Antão para o latim seria Antonius, o que explica a confusão com o outro Santo Antônio, visto como casamenteiro, mas que na real, era muito mais que um santo popular, era um Doutor da Igreja, um estudioso profundo de diversas áreas, incluindo Medicina.
Portanto, o Santo Antônio das obras de Dali, Bosch e outros é o Antão do Egito e não o Antônio de Lisboa, capiti?
AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO CONFORME HIERONYMUS BOSCH
1495 -1500
Explicações:
[...] Painéis exteriores
Nos painéis exteriores são apresentadas duas cenas da Paixão de Cristo: no painel esquerdo, a Prisão de Cristo com Judas e São Pedro em primeiro plano, no painel direito, Cristo a caminho do Calvário com Santa Verónica ajoelhada a seus pés.
Painel esquerdo
Também chamado "ascensão e queda de Santo Antão", este painel corresponde ao primeiro momento das tentações. Assim, na parte superior da imagem o Santo é levado pelos céus por demónios. Num segundo momento Santo Antão é amparado por dois religiosos e por um leigo, vestido de vermelho escuro. Sob a ponte de madeira, três monstros lêem uma carta enquanto outra figura que patina no gelo se prepara para lhes entregar outra. Mais à frente vemos um conjunto de figuras demoníacas, em trajes de religiosos, que caminham para uma construção cuja entrada é feita com o corpo de um homem ajoelhado, simbolizando um prostíbulo.
Painel direito
Conhecido como "a meditação de Santo Antão", este painel apresenta uma mulher banhando-se, nua, junto a um tronco de árvore coberto de um manto vermelho, tentando aliciar o Santo. Este desvia o olhar para a esquerda, onde depara com um grupo de estranhos seres que o tentam aliciar com comida e bebida. No topo, repete-se a imagem dos demónios voadores levando estranhos passageiros. Em segundo plano, vemos uma cena de batalha e uma figura com uma espada que enfrenta um dos monstros.
Painel central
O centro da imagem é preenchido por um templo cilíndrico, em ruínas, que é o único espaço do quadro que não é invadido por demónios. As paredes do templo são decoradas com imagens alusivas ao Antigo Testamento. No interior, junto a um altar a figura de Cristo faz um gesto de bênção, repetido pelo próprio Santo que olha na direcção do espectador. Em fundo, ardem aldeias. O restante espaço é preenchido com seres fantásticos, a maioria híbridos, parte homens, parte animais.
Significado
Santo Antão é considerado o fundador do monaquismo cristão, por ter renunciado aos bens materiais para viver no deserto, em pura contemplação, tornando-se um poderoso símbolo de renúncia ao mundo e ao pecado. As Tentações de Santo Antão apresentam-nos um mundo dominado por forças demoníacas, entregue ao pecado e à culpa. Perante esta visão pessimista e angustiada a única esperança está em Cristo - a figura no centro do quadro. Só pela força da renúncia, amparado pela fé, pode o homem libertar-se dos demónios que o atormentam.
As Tentações de Santo Antão trazem-nos, a par da loucura e do pecado, a visão de Cristo e do Santo firme na sua fé.
Numa época em que se acreditava firmemente na presença do Diabo e nos tormentos do inferno, na vinda iminente do Anticristo e do Juízo Final, a serenidade de Santo Antão olhando-nos do templo arruinado no centro do quadro, deve ser considerada como um símbolo de esperança. [...] (Com Wikipédia)
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HISTÓRIAS DA IGREJA CATÓLICA SOBRE SANTO ANTÃO
Este santo viveu durante os séculos III e IV. Foi um dos primeiros monges a retirar-se ao deserto para viver entregue ao jejum e à oração. A Igreja conhece sua história graças ao seu biógrafo Santo Atanásio.
“Quando visitávamos Santo Antão nas ruínas onde vivia escutava tumulto, muitas vozes e o choque de armas. Também viam que durante a noite apareciam bestas selvagens e o santo combatia contra elas através da oração”, conta Atanásio.
Numa certa ocasião, aos seus 35 anos, Santo Antão decidiu passar a noite sozinho numa tumba abandonada. Então apareceu ali um grupo de demônios e o feriram. Os arranhões do demônio lhe impediram de levantar-se do chão. O ermitão comentava que a dor causada por essa tortura demoníaca não podia ser comparada com nenhuma ferida causada pelo homem.
No dia seguinte, um amigo seu o encontrou e o levou ao povoado mais próximo para curá-lo. Entretanto, quando o santo recuperou os sentidos pediu ao seu amigo que o levasse de volta à tumba. Ao deixá-lo, Santo Antão gritou: “Sou Antão e aqui estou. Não fugirei de suas chicotadas e nenhuma dor ou tortura me separará do amor de Cristo”. Santo Atanásio relata que os demônios retornaram e ocorreu o seguinte:
Escutou-se uma trovoada, parecia o barulho de um terremoto, que sacudiu o lugar inteiro e os demônios saíram das quatro paredes em formas monstruosas de animais e répteis. O lugar desta maneira ficou cheio de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos. O leão rugia, querendo atacar; o touro se preparava para atacar com seus chifres; a serpente se arrastava procurando um lugar de ataque e o lobo rosnava ao redor dele. Todos estes sons eram assustadores.
Embora Santo Antão arquejasse de dor, enfrentou os demônios dizendo: “se vocês tivessem algum poder, bastava que somente um de vocês viesse, mas como Deus os criou fracos, vocês querem me assustar com a quantidade de demônios: e o que comprova a sua debilidade é que adotaram a forma de animais irracionais”.
“Se forem capazes, e se tiverem recebido um poder de ir contra mim, ataquem-me de uma vez. Mas se não são capazes, porque me perturbam em vão? Porque minha fé em Deus é meu refúgio e a muralha que me salva de vocês”.
De repente, o teto do lugar foi aberto e uma luz brilhante iluminou a tumba. Os demônios desapareceram e as dores pararam. Quando percebeu que Deus o salvou, ele rezou: “Onde estavas? Por que não apareceste desde o começo e me liberaste das dores? ”.
Deus respondeu-lhe: “Antão, eu estava ali, mas esperei para ver-te brigar. Vi como perseveraste na luta, e não caíste, sempre estarei disposto socorrer-te e o teu nome será conhecido em todas partes”.
Depois de escutar as palavras do Senhor, o monge se levantou e orou.
Então recebeu tanta força que sentiu que no seu corpo tinha mais poder
do que antes. [...] (Com Bíblia Católica News)
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A questão do Inconsciente via obra de 'A tentação de Santo Antônio" de Salvador Dali
Imagem via WahooArt
[...] (Dalí), em 1927, instalou-se em Paris e tornou-se membro do movimento surrealista, liderado pelo poeta André Breton. Como reação ao racionalismo e ao materialismo, o surrealismo tinha a proposta de utilizar o potencial do subconsciente como fonte de imagens.
Essas características estão presentes em 'Persistência da Memória', criada em 1931, e 'Metamorfose de Narciso', de 1937. A instigante obra 'A Tentação de Santo Antônio', realizada em 1946, em Nova York, contudo, foi feita durante um concurso no qual era necessário retratar Santo Antônio/ANTÃO sendo tentado, assim como na passagem bíblica.
Na obra, Dalí se utilizou das noções de sonho — diante da intensidade do inconsciente, nos vemos tentados e desprotegidos. Santo Antônio se vê diante de uma forte tentação, que o desnuda — assim como os sonhos, que nos despem de qualquer privação.
única esperança que lhe resta está em Cristo — a cruz. A cruz segurada por Santo Antônio, todavia, é de estrutura frágil e parece prestes a se quebrar, revelando a fragilidade do homem. No chão, dois seres aparentam passar por outros conflitos.
O cavalo, que se lança sobre Santo Antônio, simboliza o inconsciente profundo e reprimido, o acúmulo de emoções. Um elefante traz uma mulher nua, representando a luxúria. Como em um sonho, que distorce tempo e espaço, as criaturas presentes na pintura são desproporcionais às reais. As proporções exageradas enfatizam sua maldade e o medo que o santo sente diante delas.
O deserto, local onde ocorre a tentação, passa a sensação de vazio, abandono e solidão.
Na obra, a sensação predominante é de que os segundos, minutos e horas não existem, e o tempo não passa: não há como fugir do inconsciente. [...] (Com AH Aventuras na História)
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REFLEXÃO NOSSA:
Para além das definições e explicações acadêmicas já conhecidas...
Seriam os demônios e os espíritos, meros personagens de histórias/fantasias criadas por nós mesmos, à partir de nosso Inconsciente, para lidarmos com nossos maiores medos e desejos?
O inconsciente, seria uma espécie de 'cofre' com informações acumuladas ao longo de eras de evolução (como o DNA)?
Ou seria, O Inconsciente, de fato, para além das explicações acadêmicas tradicionais, uma espécie de 'arquivo ou biblioteca', com informações não apenas dessa vida, mas de várias vidas sucessivas?
Emerson E-Kan
#FilosofiaRealista, Realismologia, 2022.
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Que a balança da justiça cósmica pese mais para o lado do bem e dos atos bons no final! Luz!