Sobre as âncoras que nos tornamos, sem querer ou querendo

 


Mais um trecho de nosso livro: "Andarilhos Errantes", compartilhado aqui.

[...] Eliza: estou apaixonada por você...
    Rúlio: não tem nada de útil para dizer não?
    Eliza: insensível! É verdade! Acho que me apaixonei por você.
    Rúlio: desde o início lhe disse que me é impossível viver com as pessoas. Eu apenas estou nessa porra de mundo, para mim tanto faz, amor, vida, morte, tragédias, comédias, tudo é um grande tanto faz! Quanto mais tempo as pessoas ficam umas com as outras se tornam âncoras umas das outras ou objetos, propriedades, merdas às quais se apegam e aí ferram com tudo.
    Eliza: eu não te prendo, nem quero te prender. Você pode ir pelo mundo, continuar a ser mendigo, andarilho doido, filósofo de porra nenhuma a procura de nada, mas saiba que, independente do que faça e de como esteja, se limpo ou fedendo, vivo ou quase morrendo, sempre poderá voltar aqui para a sua âncora, mas, que acima de tudo, é sua amiga e que, por mais absurdo e mentiroso que lhe pareça, lhe quer bem de verdade.
    Rúlio: eu sei, Eliza. Eu sei que você sempre teve algum interesse por mim, porque de alguma maneira lhe divirto.
    Eliza, com gracejos: como pode dizer isso, meu safadão ingrato?
    Rúlio: é o que é, não é?
    Eliza: tu é um lunático mesmo! Insensível, puta que pariu, viu?!
    Rúlio: está vendo? Não posso viver com as pessoas, não sou bom com as pessoas.
    Eliza: odeio você, mas acho que mais amo do que odeio, seu louco!
    Rúlio, rindo: só se pode odiar aquilo que ama, dizem.
    Eliza: vou te ver outra vez?
    Rúlio: Não sei, talvez, ou nunca mais! De qualquer forma, gostei da roupa! Muito grato, Eliza.   
    Eliza: não me deve nada, nem ingratidão.
    Rúlio: essa eu te dou, de grátis!
    Eliza: louco! [...]

 E-kan

 


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